A Defesa da instituição da imprensa
Para o ex-presidente da Radiobrás, o Estado deve ser fiscalizado pela imprensa e jamais se tornar editor de informações.“O perigo de você admitir que tudo é tendencioso, é que você acaba legitimando, por tabela, o partidarismo governista”.
Eugênio Bucci já experimentou praticamente de tudo o que o jornalismo pode oferecer em termos de carreira profissional. Da reportagem à direção de grandes redações da editora Abril, onde também ocupou cargo de Secretário Editorial. Assinou colunas em Veja, Folha de S. Paulo, e Estado de S. Paulo. No meio acadêmico, atualmente leciona no curso de jornalismo da USP. Em 2003, aceitou o convite do presidente Lula de presidir a Radiobrás, a empresa brasileira de comunicação, onde ficou até 2007. Foi lá, valendo-se das experiências que adquiriu por meio de sua circulação não apenas no mundo informativo e caótico que representa as redações nas quais trabalhou, mas, também, no mundo acadêmico – não por isso menos caótico que o da imprensa – que o jornalista peitou qualquer tipo de pressão vinda do Estado para levar adiante um jornalismo livre, apartidário e objetivo. Aliás, ao que se refere a este último conceito, Bucci é categórico: pensa a objetividade “com relação àquilo que ela busca evitar, que é a subjetividade deliberada”. No ano passado, lançou Em Brasília, 19 horas, livro que apresenta sua trajetória na Radiobrás.
Há uma confusão quando se tenta verificar se o jornalismo ainda mantém uma postura racionalista do Renascimento. Pode-se dizer que essa discussão já foi ultrapassada? O senhor defende que o jornalismo deve ser objetivo, vigilante; isso não seria retroceder, ao invés de buscar novas linguagens?
O jornalismo nasce, principalmente, por meio da imprensa de opinião, que é aquela que aflora no século das Luzes. Os jornais eram veículos de correntes de opinião. A idéia da objetividade vai ganhar mais força no século 19, mais exatamente no começo do século 20, quando o jornalismo já passa a ser uma indústria autônoma, um negócio autônomo. Os jornais independentes são também negócios independentes; isso vem da descoberta de que a informação pública é uma mercadoria e como tal as pessoas vão pagar um valor para estarem bem informadas. Eu não penso em termos de racionalidade no espaço público. O que eu penso é que, hoje, a função de mediação do debate público requer do narrador e do mediador independência de perspectiva. Ele não pode representar interesses econômicos; ele pelo menos não deve pretender fazer isso. Ele não deve também ser um divulgador ou propagandista de causas parciais da sociedade. O valor da informação está vinculado à capacidade que essa informação tem de servir diferentes públicos, refletindo, às vezes, interesses conflitantes. Assim é que o jornalismo pode fazer mediação. E é nesses termos que eu falo de credibilidade. É importante que o público, quando leia ou quando tenha acesso à informação, se sinta confortável para acreditar na boa-fé daquele que está reportando aquela informação. É disso que se trata, e não da adoção de parâmetros racionais, mas da adoção de parâmetros que possam acolher a confiança do público. O jornalismo pode ser indiretamente vinculado a uma determinada causa? Ele pode desde que isso seja explicitamente posto para o público. De forma que o público, ao ter acesso a essa informação, possa filtrá-la devidamente.
Clique no link *leia mais* e veja a entrevista na íntegra.
Em Videologias, o senhor diz que “o mito cimenta as estruturas de qualquer sociedade, pois fornece um suporte imaginário ao desamparo dos sujeitos na linguagem”. Seria, portanto, o jornalismo, e principalmente a televisão, os últimos recursos iluministas que restaram para sustentar a idéia de que a representação da realidade é fiel às coisas concretas do cotidiano, e que a similitude dos signos com as coisas seria, como Foucault observou, “coisa” para loucos ou poetas?
Eu falo, no Sobre Ética e Imprensa, que muitas vezes o jornalismo se coloca como a última reserva do Positivismo. Isso eu falo, evidentemente, num tom de crítica. Porque não é verdade que a forma de representação contenha a verdade. E quanto a isso a gente tem um problema adicional, que é o problema do olhar. Nós somos, como diz o Regis Debrey, uma civilização autorizada por seus aparelhos a acreditar em seus olhos. Não é verdade também que aquilo que você vê seja expressão da verdade, mas a gramática que nós temos da representação muito lastreada na imagem faz crer que a imagem é o último critério da verdade. E isto afastaria a possibilidade de interpretação, de reflexão e de pensamento para uma via de conhecimento do mundo. E claro que isso torna o discurso jornalístico muito mais estreito e muito mais distante da função de mediar e de refletir o debate público. A palavra é essencial. Eu acredito, respondendo a sua pergunta, que nós temos nesse regime de representação da verdade pela imagem um grande problema, sem prejuízo de que ver é importante também, o jornalismo talvez precise se ocupar de reportar e de debater, com qualidade, os limites dessa forma de representação, convidando o público a duvidar de seus próprios olhos muitas vezes. E, de novo, isso requer do jornalismo que ele se ponha ser merecedor da confiança do público, e isso não significa se render à tirania do olhar, mas informar sobre o olhar também.
Em que sentido, portanto, o jornalismo deve ser vigilante, sem ser, ao mesmo tempo, outra forma de poder?
Quando se estabelece o raciocínio de que algo que fiscaliza o poder também consolida um outro poder, não há muito como fugir disso. Porque nós sempre estamos falando de contrapeso de poder, ou de contra-poder. A imprensa, nesse sentido, ela precisa ser vista como uma instituição da sociedade, assegurada pela liberdade e pelo direito à informação do cidadão. É porque o cidadão tem direito à informação que a democracia existe, na verdade. Porque só com o acesso à informação ele pode exercer o seu julgamento, a formação da sua opinião e da sua vontade e delegar, exercer e fiscalizar o poder. A necessidade de fiscalizar vem da necessidade de se impedir que um poder seja absoluto, ou que um poder se amplie para além das suas limitações originais. Aí, nós não podemos deixar de levar em conta a natureza da administração pública, sobretudo a natureza da administração pública em Estados como o brasileiro. Quem é que fiscaliza esse poder? Nós estamos vivendo agora o caso das caixas pretas do Legislativo (seja do Senado, na Câmara ou até na Assembléia Legislativa de São Paulo). Como a sociedade pode se dar conta do que está acontecendo a não ser pela imprensa? É claro que existem conselhos de fiscalização, que são fundamentais; existem os tribunais de conta… A própria democracia, na sua institucionalização dentro da máquina administrativa, cuida de estabelecer contrapesos e sistemas de vigilância. Mas a instituição da imprensa é que dá a visibilidade para essas coisas. E ela faz isso porque dispõe de sistemas que tornam públicos os caminhos de acesso à informação. Qualquer um pode acessar os sites informativos, pode comprar jornais, pode ver televisão e acompanhar, na medida do seu interesse, da sua necessidade, o que se passa aí. Nesse sentido, se uma democracia renuncia a prestigiar a sua instituição da imprensa, porque ela pode vir a consolidar um poder maior que aquele que ela originalmente deveria fiscalizar, essa sociedade vai automaticamente renunciar a publicização dos dados da administração pública. Você não pode deixar a cargo da própria administração pública a função de ser vigiada. É importante que a sociedade, de fora do Estado, tenha como buscar, verificar e debater publicamente esses dados. Não resta dúvida também de que a crítica da imprensa e os debates sobre os limites da própria imprensa são imprescindíveis. Mas eles devem sustentar a instituição da imprensa, e não tender a abolir a instituição da imprensa. Os veículos que caminham fora disso precisam ser criticados, precisam ser enquadrados no debate público; mas não criticados ou enquadrados pelo poder público. Nós temos que enxergar o debate da imprensa no âmbito da sociedade e dentro deste âmbito, e não permitir que os tentáculos do Estado limitem, censurem, editem a informação que vai a público. Então quando eu defendo a instituição da imprensa, eu não defendo um veículo ou outro; eu defendo que num veículo ou em outro veículo realiza a missão da instituição da imprensa. O conjunto desses veículos faz viver a instituição da imprensa, mas a instituição da imprensa é maior que o conjunto dos veículos. Ela é a encarnação dessa liberdade e do direito à informação. Da instituição da imprensa fazem parte tanto os jornais tradicionais, como os novos sites, os blogs, as inúmeras manifestações de debate sobre a informação que precisa ser pública. E a grande resistência que existe para isso, hoje, vem exatamente da opacidade de setores da administração pública, que geram dinheiro, mas não querem prestar conta sobre isso. Então, esse conflito, que é um conflito empírico, pontual, nos ajuda a enxergar o que é o conflito de fundo da sociedade livre, democrática, fiscalizando um poder Estatal que não pode se proteger na opacidade.
Parece-me que a necessidade do jornalismo em apropriar-se de recursos da ficção, como o melodrama, para construir seu discurso vem de muito antes da sociedade do espetáculo. Ele precisa, de fato, usar o imaginário, criar semelhanças entre as coisas para existir enquanto relato da realidade?
Isso que você está levantando é excelente, porque permite alguns esclarecimentos prévios. Em primeiro lugar, o jornalismo ganha a forma que vai desembocar na imprensa industrial do século 19 pela presença dos homens de letras, tanto os filósofos, quanto os literatos mesmo. De sorte, que já aí, elementos estéticos da linguagem artística comparecem ao discurso jornalístico e o moldam. Depois, a partir do século 19, as grandes peças de reportagem são elas também objetos estéticos, porque conseguem um nível de representação e recriação dos fatos, porque esse discurso ordena os fatos, que consubstanciam peças que revelam horizontes mais amplos. Elas têm valor estético e isso é anterior ao que a gente passou a chamar de sociedade do espetáculo. Esses traços já estão no jornalismo. A possibilidade de se fazer jornalismo com o uso da imagem eletrônica (ou da imagem industrializada) também é muito enriquecedor e não é em si um problema. O que a chamada sociedade de massas, depois da sociedade do espetáculo, traz para o discurso jornalístico é que, em vez de dialogar com as formas de arte, com a literatura, ou com as formas de pensamento, como a filosofia, ou com as formas de representação visual, como as próprias artes plásticas, ele passa a dialogar com a linguagem industrializada do entretenimento. E é daí que ele vai buscar suas referências. Ele se abastece do entretenimento; e o entretenimento, sem juízo de valor, empobrece, pois ele estreita o caminho da representação. E aí, ao buscar suas referências no entretenimento, o jornalismo começa a padecer dos mesmos males. O jornalismo de televisão é muito marcado pela narrativa do melodrama já industrializado. Veja que ele não é influenciado pelo cinema.
“Não bastava convencer o presidente da república, era preciso convencer a inércia de um modo de trabalhar que vem de muito tempo”
Mas e o Novo Jornalismo? Ele busca na ficção formas de expressar a realidade, muitas vezes até mesmo para divertir, entreter o leitor. Seria um “bom uso” da ficção, do drama…
Não é bem isso, pois o Novo Jornalismo tem peças que descortinam o mundo. Mas aí você pode falar que ele não é objetivo. Eu direi que ele é objetivo; é objetivo porque a objetividade no jornalismo não vem da correspondência do relato com o objeto, ela vem da correspondência do relato com a intersubjetividade. É um discurso que faz sentido para um grupo de pessoas interessadas na busca do conhecimento dos movimentos do chamado mundo real. Abro um parêntese aqui, porque é complicado falar de realidade sem falar de discurso. A própria realidade é uma configuração discursiva. Esse prédio onde estamos, por exemplo. Você pode dizer que essas paredes são a realidade, mas eu posso dizer, sem prejuízo disso, que essas paredes são a materialização de um projeto concebido pelo discurso arquitetônico, e a realidade já se põe como organização discursiva. Então o jornalismo e os outros relatos constituem a realidade, mais do que a descobrem ou a desvelam. Por isso que o jornalismo como mediação de debates públicos precisa estar atento para esse fenômeno, também. Para poder investigá-lo; hoje quando você cobre a situação de uma cidade, você não cobre mais essa cidade como se ela fosse um dado da natureza. Você a cobre como um projeto e já debate a cidade como um projeto, dizendo, às vezes, como mudar esse projeto. Então, a relação com a realidade já fica mais crítica, nesse sentido. Até mesmo o jornalismo dedicado às questões ambientais ele vê a preservação da natureza como um projeto. E mesmo a palavra projeto é problemática: ela envolve uma visão de mundo tipicamente moderna, segundo a qual nós seríamos capazes de construir o mundo a partir dos nossos projetos, e isso também não é bem assim. Aqui eu fecho o parêntese, com relação à dificuldade de a gente falar de realidade como sendo aquele pano natural sobre o qual se deitam os olhos do jornalismo. Ela não é um pano natural, a realidade é uma realidade discursiva, ou seja, ela é uma configuração do discurso, com a ajuda luxuosa do jornalismo. Agora, se você entende o modo pelo qual o melodrama comparece ao telejornalismo, você aprende um pouco a identificar os problemas, as limitações do telejornalismo. Ele é pensado como peça para entreter mais como peça para informar. O desafio é fazer com que ele seja informativo dentro desse modelo. E à medida que ele consegue ser informativo, trazendo para si a atenção do público, ele começa a se distanciar criticamente do modelo melodramático. Não existe o cenário de você não ter essa tensão. O mais importante para o jornalismo, e particular, é o modo como ele vai lidar com essa tensão presente. É preciso fugir das abordagens simplificadoras que vão dizer que não importa a linguagem do jornalismo, que ele vai ser sempre crítico e fiscalizador. Não é verdade. A outra simplificação é dizer que qualquer coisa que se valha da imagem, ou que tem influencia do melodrama, vai ser uma forma de encobrir a realidade e não de investigá-la, o que também não é verdade! E não há um modelo puro de um lado, nem um modelo puro de outro lado. Eu digo até que os dois modelos puros estão errados. Não é que eles podem se combinar… Os dois já estão errados. O jornalismo faz sentido como um diálogo social; se ele é um diálogo social, ele incorpora tudo isso, inclusive os preconceitos.
E aí é que está o desafio da questão da objetividade, que muita gente recusa. O problema de você dizer que a objetividade não existe, é você dizer, então, que vale toda forma de subjetivismo. E se você disser isso, você vai dizer que não há mais maneira de, pelo diálogo social, nós entendermos o fenômeno da realidade, o fenômeno da sociedade em que vivemos. Porque, segundo essa idéia, tudo é subjetivo.
Quando eu digo que a objetividade está na intersubjetividade eu pelo menos estou abrindo uma porta para afirmar que a objetividade faz sentido à medida que ela faça sentido para um grupo de pessoas. Porque o jornalismo não fala de dados da natureza: ele fala de pessoas, a partir de pessoas, por meio de pessoas, para outras pessoas. Fala de pessoas, porque o objeto da notícia é o que as pessoas falam e pensam; fala por meio de pessoas, porque quem relata isso, quem consolida essas informações são seres humanos, buscando informação por meio do diálogo com outras pessoas, que são as fontes. E sendo pessoas, são concentrações dos feixes mais diversos de interesses, às vezes até conflitantes. E, por fim, o jornalismo fala para o público, que também é formado de pessoas. Então, o fenômeno coberto pelo jornalismo é o fenômeno humano, cultural. Não é um fenômeno da natureza, não está descrevendo as montanhas; o jornalismo não fala das montanhas: fala o que os homens estão falando sobre as montanhas. Não fala dos astros no céu, fala o que os cientistas que estudam o céu estão estudando. Não fala da política como se fosse um dado da natureza, mas de como as pessoas agem na política. E assim por diante.
Por que é importante o conceito de objetividade? Porque ele é a única (não estou falando de uma das únicas) referência que pode resguardar a minha boa-fé como jornalista em relação a sua boa-fé como público; a minha boa-fé como jornalista em relação a sua boa-fé como fonte. É nesse sentido que o jornalismo tem compromisso com a objetividade. Precisamos pensar a objetividade com relação àquilo que ela busca evitar, que é a subjetividade deliberada. Eu não falo que o jornalismo deva ser produto de computador. Não, eu falo que ele é produto da cultura humana, portanto é histórico, é contigenciado por mil fatores. Eu falo que aqueles que lidam com o relato jornalístico devem buscar evitar a transformação do relato factual, ou da cobertura das idéias, em máquinas de propaganda de outros fatos, de outras idéias. É um compromisso ético.
É disso que se trata, portanto, o comentário seu que diz que, hoje, vivemos num ambiente “que não tem governo e nunca terá”?
Ambiente que a sempre viveu como democracia. Só que os meios de comunicação, que não se confundem com jornalismo, seguem uma lógica própria. Essa lógica própria, que é a da indústria cultural, do entretenimento, do espetáculo, é inimiga do debate das idéias. Tem razão aqueles que dizem – e eu mesmo digo isso – que se dependêssemos da lógica do entretenimento, teríamos que desistir do jornalismo. Só que isso não resolve o nosso problema. Isso é verdade, mas é parte do diagnóstico. Porque, de outra parte, as pessoas estão se comunicando por meio dessa indústria. Então é preciso abrir espaços de diálogo dentro dessa indústria. Então, é para isso que chamo a atenção. A noção de objetividade vale menos por si mesma e muito mais por aquilo que ela procura evitar. E ela procura evitar como garantia de que o público terá acesso à informação.
Então é a este conceito de objetividade que diz respeito o documento diz como o jornalismo deve ser feito pela Radiobrás?
Precisamos pensar a objetividade com relação àquilo que ela busca evitar, que é a subjetividade deliberada. Eu não falo que o jornalismo deva ser produto de computador. Qual é a armadilha que é preciso combater? A armadilha é quase que uma construção retórica que no limite sonega o direito à informação. Ela diz assim: toda forma de jornalismo é tendenciosa e toda forma de jornalismo carrega um volume imenso de subjetividade; portanto é tolice perseguir a objetividade. Ora, já que toda forma de jornalismo é subjetiva e tendenciosa, além de partidária, sejamos tendenciosos, subjetivos e partidários na outra direção. Com isso, nós vamos contrapor o partidarismo deles ao partidarismo nosso e, daí, virá uma resultante, que é o ponto de equilíbrio. Isso é um engano. Porque duas mentiras, colocadas sob o denominador comum, não produzirão uma verdade, mas sim duas mentiras. A verdade não é a média aritmética entre duas mentiras; a verdade, no jornalismo, é a busca do entendimento dos fatos reais, sem que você tenha respostas sobre isso. E essa busca, que vai se valer dos instrumentos disponíveis, vai muitas vezes incorrer de subjetivismos e partidarismos. Se ela estiver pactuada, no sentido de evitar essas distorções, ela terá mais qualidade. O Estado no Brasil é um grande patrocinador da informação, seja como anunciante – só em 2008, dados revelados pela Folha, o governo Federal gastou um bilhão em relação a isso. Ele também aparece como patrocinador de informação por meio de seus próprios veículos, estatais ou supostamente públicos, que na verdade acabam se alinhando a governos. O perigo de você admitir que tudo é tendencioso, é que você acaba legitimando, por tabela, o partidarismo governista.
Qual foi a maior dificuldade, durante o período em que presidiu a Radiobrás, no que diz respeito à aplicação de tais conceitos no cotidiano de trabalho?
A cultura instalada. Nós temos uma cultura no Brasil, e aí falando de comunicação pública especificamente, segundo a qual é legítimo que o governo defenda seu peixe pelos meios públicos. Não só os governantes de todos os partidos acham que é legítimo, mas os trabalhadores dessas empresas também acham. Acham que trabalham para deixar os governantes contentes. Acham que o presidente é o cliente e isso leva a um servilismo e a uma apropriação dos meios públicos para fins privados, que é o que eu chamo de patrimonialismo. Porque não bastava você convencer o presidente da república, era preciso convencer a inércia de um modo de trabalhar que vem de muito tempo.
O senhor chegou a receber pressão do próprio PT?
É, alguma pressão, mas isso não era o pior. O pior era você falar “vamos cobrir objetivamente as coisas e estabelecer parâmetros para isso” e aí você ia ver o jornal e era uma chapa-branca deslavada. Todo mundo que participa da política acha que a imprensa é uma campanha de difamação permanente. O Estado não tem que editar informação, tem que cuidar dos assuntos de interesse comum e ser fiscalizado pelos veículos de informação. Às vezes o que eu falo parece uma tentativa de se restabelecer uma ordem liberal, mas não é isso.
Mas alguns leitores chegam a pensar que o senhor tenta restabelecer essa ordem.
Não, e eu tenho me oposto com energia a essa mentalidade de, por meio do Estado, estabelecer limites para a imprensa. Esse que é o grande risco. Quem estabelece limites para a imprensa é a sociedade; por quais meios? Pelos meios da própria imprensa, mas quando falo dela não estou falando da Folha de S. Paulo ou do Estado de S. Paulo, mas sim da instituição da imprensa, que inclui as nossas manifestações, inclui a Caros Amigos, Carta Capital, inclui o Observatório da Imprensa, os seminários. Outra coisa diferente é você chamar o Estado para dizer o que é notícia e o que não é notícia, o que a sociedade deve conhecer ou o que ela não deve conhecer. Um governo, por mais que ele tenha tido votos, não recebe mandato para editar as informações que vão a público; ele recebe mandato para governar, para investir dinheiro público aqui ou ali, para implementar um programa de governo, para representar o país, para cobrar impostos, para fazer valer as políticas públicas, assegurar o atendimento dos direitos fundamentais, por meio da administração pública; ele não recebe mandato para decidir o que a sociedade deve deixar de discutir; não recebe mandato para dizer como a imprensa deve ser ou deixar de ser. É o contrário, um governo democrático deve se relacionar com a imprensa como fonte, e ponto final. Porque qualquer ordem democrática, que não atender a esse requisito que historicamente é imposto pelo liberalismo, vai ficar aquém e não além disso. Mas eu não defendo um restabelecimento da ordem liberal; eu defendo que as garantias democráticas – tanto as que foram trazidas pelos movimentos dos trabalhadores, pelos movimentos socialistas, como aquelas que foram garantidas pelos movimentos liberais – estejam asseguradas na nossa sociedade. E um dos pilares, um dos dogmas mesmo dessa ordem democrática, que não é liberal ou socialista, mas sim uma ordem democrática, é o princípio pelo qual não cabe ao governo editar o debate público.
Vamos raciocinar pelo extremo. Se um governo se torna, como muitos governos gostariam, o editor das informações, e passa a editar os jornais, as revistas, a televisão, que mundo nós teríamos? Quem iria achar a caixa preta do Senado? Quem iria descobrir os escândalos? Então é esse que é o problema. Se hoje nós não percebermos que nós temos que defender a instituição da imprensa, e não os veículos, nós podemos embarcar numa lógica de um governo, por ser legítimo, por ter recebido votos, pode se colocar como mediador do debate público, e aí é a morte.
Por que, então, se permite às empresas privadas de comunicação que editem o que a sociedade deve, ou não, saber? Há saída?
Isso é verdade, e claro que temos saída. É preferível uma imprensa ruim, mas livre, a uma imprensa supostamente de qualidade, mas comprometida com o governo. Porque, no fundo, ela vai ser da pior qualidade possível. Mas aí você fala: o debate público, a praça pública, o espaço público estão sob a mediação do capital. Isso é verdade pelo menos desde os anos 1950, 1940. Um teórico como Habermas, por exemplo, vai falar da lógica sistêmica, ou da racionalidade sistêmica, que teria um vetor no capital, que é a economia, o subsistema da economia, cujo meio é o dinheiro. E ele vai falar do subsistema do Estado, cujo meio pode ser o voto, a política. E essas lógicas dos subsistemas tendem a colonizar o espaço público, fazendo exatamente o que você descreve. A isso ele vai opor a dinâmica do mundo da vida, em que se daria o entendimento entre as pessoas. Bom, o espaço público tem, hoje, uma predominância do subsistema da economia, ainda no paradigma habermaziano? Tem, mas poderia ser pior. Se o Estado açambarca o subsistema da economia, nós estaríamos todos num único, que é economia e Estado. Você poderia dizer que a saída é estatizar. Mas eu diria: jamais. O caminho para isso depende do Estado não como editor de debate público, mas depende do Estado para estabelecer regras democráticas para o funcionamento do setor de mídia.
E como se daria essa fiscalização por parte da sociedade? Seria incumbência exclusiva dela essa função de ficar de olho nos grandes veículos?
Pela própria sociedade eles já são. O nosso problema é que temos pouca pluralidade. Se você pega uma cidade como o Rio de Janeiro, onde uma única empresa é dona do maior canal de televisão, da maior emissora de rádio, do maior jornal diário, você vê que ali temos um ambiente de pouca pluralidade, naquela área geográfica. Então, isso é um problema. Só que quem resolve isso é o Estado, não colocando dinheiro para anunciar, mas assumindo a sua obrigação de fazer uma regulação democrática para esse setor. Regulação que já existe em vários outros países; é uma coisa inacreditável quando se compara. Não há muita escapatória. Nós estamos, ainda, envolvidos num modismo, que vem do período anterior ao Lula no governo, que é igualar todo o poder da imprensa ao poder da classe dominante, e depois identificar que o governo do PT é o poder dos oprimidos. Isso é primário, isso sim é um melodrama, uma história em quadrinhos. Porque não é isso. Então, quem fiscalizaria o poder da imprensa? Primeira coisa que nos faz falta é uma regulação democrática – sobre isso já escrevi exaustivamente. Segunda coisa é pluralidade de veículos. O Estado poderia atuar aí não com verba de publicidade, mas com programas democráticos de financiamento, de fomento de veículos alternativos: “toma para você, veículo ‘tal’, X milhões para você se estabilizar em dois anos, três anos”. Essa verba seria disputada em licitações transparentes, públicas, por vários veículos, equilibrando o regime de propriedade, garantindo uma competição saudável, econômica mesmo, capitalista, deve-se dizer, mas saudável. Além da regulação, da pluralidade: o surgimento de mais mecanismos de crítica e exame permanente do que a imprensa publica. Você tem coisas inovadoras, como o Observatório da Imprensa, o Ombudsman da Folha de S. Paulo, o observatório do pessoal do Intervozes, o Direito à comunicação, etc. A questão é que isso é da competência da sociedade, não do Estado.
O Estado deveria, então, instituir, em escolas públicas e particulares, um ensino de preparo à interpretação e crítica da mídia?
Claro. Eu acho que a convivência com a mídia, sem dúvida, é um dos grandes desafios da nossa democracia, para você preparar cidadãos críticos. No colégio Equipe, no tempo em que criamos uma ONG chamada Tver, chegou-se a fazer um programa sobre isso (não de TV, mas um programa de seminários, de debates), e os estudantes discutiam isso. Talvez mais importante do que a educação sexual seria a educação para a comunicação democrática. Mas em que isso muda a necessidade de nós respeitarmos a instituição da imprensa? Você pode dizer, de forma panfletária, que os maiores inimigos da instituição da imprensa, hoje, são o comportamento de alguns veículos. É verdade.
Isso chega a ser paradoxal.
Sim, é contraditório. Só que, a partir dessa constatação, você não pode concluir que você precisa destruir esses veículos. Eles são legítimos, é democrático que eles existam. O problema não é a existência deles; o problema é a não existência de outros. Eles estão no direito deles, estão exercendo a liberdade deles, e ainda bem que estão, porque pelo menos alguém está exercendo a liberdade de imprensa. Acontece que quem fala muito sobre cercear esses veículos, gostaria de ver um mundo sem imprensa em geral ou gostaria de ver uma imprensa que os agradasse. E desses, eu estou fora. Criticando a chamada grande mídia, eles usam os mesmos modelos discursivos, tendenciosos, acreditando que a verdade vai ser a média aritmética entre duas mentiras. Não é por aí.
Para terminar, qual é a sua opinião a respeito da obrigatoriedade do diploma de jornalista?
Olha, não é uma questão que me mobilize profundamente. Eu acho que o diploma cumpriu um papel histórico importantíssimo no Brasil. Ele civilizou uma profissão, porque conseguiu dar um caráter um pouco mais unitário a uma profissão, elevou os padrões de remuneração, estabeleceu cânones de conduta mínimos. Mas hoje o diploma tem inúmeros problemas. Eu sou um defensor do benefício histórico que ele trouxe para o Brasil. Mas hoje, o mais sério dos problemas é que hoje os sindicatos e a FENAJ dizem que assessores de imprensa e os jornalistas exercem a mesma profissão. E não é a mesma profissão; isso confunde a opinião pública sobre o papel do jornalista como observador independente. Quando você diz que um assessor de imprensa e um repórter exercem a mesma profissão, você sepulta a idéia da independência e isso é muito grave. Eu defendo, publicamente, que essas duas profissões tenham códigos de ética diferentes e, se possível, institutos de representação diferentes. Essa idéia é recusada pelos sindicatos, porque hoje cerca da metade dos filiados desses sindicatos são assessores de imprensa. E, depois, eu também tenho dúvida sobre a constitucionalidade dessa exigência. Se eu e você não temos diploma de jornalista e queremos abrir um blog, nós não poderíamos? O que separa o jornalista do não-jornalista? Uma coisa é você assegurar a liberdade de expressão para todo mundo, outra coisa é assegurar uma qualidade da informação jornalística. E a julgar pela experiência de outros países, isso não depende da exigência do diploma. Veja nos EUA, na Espanha, e em outros, o que acontece. Nenhum deles exige diploma, mas as escolas boas colocam jornalistas nos grandes veículos, que procuram gente com boa formação. Então eu acho que os argumentos são pertinentes. Mas não tenho uma posição fechada sobre isso, nunca fui levado a ter uma posição fechada sobre isso. Acho que é um debate que a sociedade tem que fazer e deve tomar uma decisão, mas, ao que me parece, pelo menos, eu não acho que a qualidade da informação que o publico recebe dependa do diploma. Acho que historicamente ele ajudou, mas acho que hoje o nosso maior problema não é esse. Nosso maior problema é a qualidade dos cursos de jornalismo, a falta de preparo dos jornalistas para construir seus próprios veículos, para fundarem novas empresas e os padrões de qualidade médios, que são fracos e poderiam ser bem melhores. Não vejo que a exigência do diploma vá determinar mais qualidade.
Filed under: Uncategorized

Você falou do Novo Jornalismo! Obrigada, querido! (Não que tenha sido por minha causa!) Fiquei até emocionada!
Eu simplesmente concordo com Eugênio Bucci, também acho que o jornalismo deve ser exclusivamente voltado para sociedade, não importando o veículo em que se trabalha, mas às vezes tudo me parece tão utópico. Com essa afirmação, não quero dizer que fugirei disso em minha tentativa de ser uma verdadeira jornalista (com meus princípios bem definidos), só quero comprovar a dificuldade que encontramos durante toda a construção de nossa carreira, desde o primeiro ano de faculdade. É visivelmente fácil definir quem tenta fazer algo que atinja aqueles que precisam de algo, não importa o que (palavras de conforto, acusações, cultura, dicas de leitura, cinema etc., análises econômicas, políticas etc.).
A principal questão é: o que é ser jornalista? Com a resposta de cada um, sabe-se o que tal profissional fará com o “poder” que possui em suas mãos (literalmente).
Acho que vou entregar um fanzine meu para ele. Só por entregar mesmo. Sem esperar coisas em troca, pois a meta do Zine Qua Non é fazer chegar, esperar voltar, mas em forma de outras ações. E isso vi em quase quatro anos de vida. Fanzines nasceram, blogs também, e isso me deixa mais do que contente.
Ele termina a entrevista com frases perfeitas e que também poderia colocar como reflexo de meus pensamentos: “Nosso maior problema é a qualidade dos cursos de jornalismo, a falta de preparo dos jornalistas para construir seus próprios veículos, para fundarem novas empresas e os padrões de qualidade médios, que são fracos e poderiam ser bem melhores. Não vejo que a exigência do diploma vá determinar mais qualidade.” Essa é minha opinião sobre o jornalismo e os jornalistas de hoje.
Bru, parabéns pela entrevista! Ficou ótima mesmo!
Demorei mais consegui terminar.
Conversaremos mais sobre isso pessoalmente. Que tal uma mesa de bar?
Muitas beijocas